História do Espiritismo

No século 19, um fenômeno agitou a Europa: as mesas girantes. Nos salões elegantes, após os saraus, as mesas eram alvo de curiosidade e de extensas reportagens, pois moviam-se, erguiam-se no ar e respondiam a questões mediante batidas no chão (tiptologia). O fenômeno chamou a atenção de um pesquisador sério, discípulo do célebre Johann Pestalozzi: Hippolyte Leon Denizard Rivail.

Rivail, pedagogo francês, fluente em diversos idiomas, autor de livros didáticos e adepto de rigoroso método de investigação científica não aceitou de imediato os fenômenos das mesas girantes, mas estudou-os atentamente, observou que uma força inteligente as movia e investigou a natureza dessa força, que se identificou como os “Espíritos dos homens” que haviam morrido. Rivail fez centenas de perguntas aos Espíritos, analisou as respostas, comparou-as e codificou-as, tudo submetendo ao crivo da razão, não aceitando e não divulgando nada que não passasse por esse crivo. Assim nasceu O Livro dos Espíritos. O professor Rivail imortalizou-se adotando o pseudônimo de Allan Kardec.

A Doutrina codificada por ele tem caráter científico, religioso e filosófico. Essa proposta de aliança da Ciência com a Religião está expressa em uma das máximas de Kardec, no livro “A Gênese”: “O espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre um certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará”.

 

Fonte: Site www.febnet.org.net

 

Allan Kardec


 

 
Nascido em Lyon, França, no dia 3 de outubro de 1804 e desencarnado em Paris, no dia 31 de março de 1869.
Muito se tem escrito sobre a personalidade de Allan Kardec, existindo mesmo várias e extensas biografias sobre a sua obra missionária.
É sobejamente conhecida a sua vida anteriormente ao dia 18 de abril de 1857, quando publicou a magistral obra O Livro dos Espíritos, que deu início ao processo de codificação do Espiritismo.
Nesta súmula biográfica, procuraremos esboçar alguns informes sobre a sua inconfundível personalidade, alguns deles já do conhecimento geral.
O seu verdadeiro nome era Hippolyte-Léon-Denizard Rivail. "Hippolite" em família; "Professor Rivail" na sociedade e "H-L-D Rivail" na literatura era, desde os 18 anos, mestre colegial de Ciências e Letras e, desde os 20 anos, renomado autor de livros didáticos. Suas obras espíritas foram escritas com o pseudônimo de Allan Kardec.
Destacou-se na profissão para a qual fora aprimoradamente educado na Suíça, na escola do maior pedagogo do primeiro quartel do século XIX, de fama mundial e até hoje paradigma dos mestres: João Henrique Pestalozzi. E, em Paris, sucedeu ao próprio mestre.
Allan Kardec contava 51 anos quando se dedicou à observação e estudo dos fenômenos espíritas, sem os entusiasmos naturais das criaturas ainda não amadurecidas e sem experiência. A sua própria reputação de homem probo e culto constituiu o obstáculo em que esbarraram certas afirmações levianas dos detratores do Espiritismo. Dois anos depois, em 1857, divulgava O Livro dos Espíritos. Em 1858, iniciava a publicação da famosa Revista Espírita. Em 1861, dava a lume O Livro dos Médiuns. Em 1864, aparecia O Evangelho segundo o Espiritismo; seguido de O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo, em 1865. Finalmente, em 1868, A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, completava o pentateuco do Espiritismo.
Na ingente tarefa de codificação do Espiritismo, Allan Kardec contou com o valioso concurso de três meninas que se tornaram as médiuns principais no trabalho de compilação de O Livro dos Espíritos: Caroline Baudin, Julie Baudin e Ruth Celine Japhet. As duas primeiras foram utilizadas para a concatenação da essência dos ensinos espíritas; a última, para os esclarecimentos complementares. Ultimada a obra e ratificados todos os ensinamentos ali contidos, por sugestão dos Espíritos, Allan Kardec recorreu a outros médiuns, estranhos ao primeiro grupo, dentre eles Japhet e Roustan, médiuns intuitivos; a senhora Canu, sonâmbula inconsciente; Canu, médium de incorporação; a Sra. Leclerc, médium psicógrafa; a Sra. Clement, médium psicógrafa e de incorporação; a Sra. De Pleinemaison, auditiva e inspirada; Sra. Roger, clarividente; e Srta. Aline Carlotti, médium psicógrafa e de incorporação.
Escrevendo sobre a personalidade do ínclito mestre, o emérito Dr. Silvino Canuto Abreu afirmou o seguinte: "De cultura acima do normal nos homens ilustres de sua idade e do seu tempo, impôs-se ao geral respeito desde moço. Temperamento infenso à fantasia, sem instinto poético nem romanesco, todo inclinado ao método, à ordem, à disciplina mental, praticava, na palavra escrita ou falada, a precisão, a nitidez, a simplicidade, dentro dum vernáculo perfeito, escoimado de redundâncias.
De estatura meã, apenas 165 centímetros, e constituição delicada, embora saudável e resistente, o professor Rivail tinha o rosto sempre pálido, chupado, de zigomas salientes e pele sardenta, castigado de rugas e verrugas. Fronte vertical comprida e larga, arredondada ao alto, erguida sobre arcadas orbitárias proeminentes, com sobrancelhas abundantes e castanhas. Cabelos lisos e grisalhos, ralos por toda a parte, falhos atrás (onde alguns fios mal encobriam a larga coroa calva da madureza), repartidos, na frente, da esquerda para a direita, sem topetes, confundidos, nos temporais, com as barbas grisalhas e aparadas que lhe desciam até o lóbulo das orelhas e cobriam, na nuca, o colarinho duro, de pontas coladas ao queixo. Olhos pequenos e afundados, com olheiras e pápulas. Nariz grande, ligeiramente acavaletado perto dos olhos, com largas narinas entre rictos arqueados e austeros. Bigodes rarefeitos, aparados à borda do lábio, quase todo branco. Pera triangular sob o beiço, disfarçando uma pinta cabeluda. Semblante severo quando estudava ou magnetizava, mas cheio de vivacidade amena e sedutora quando ensinava ou palestrava. O que nele mais impressionava era o olhar estranho e misterioso, cativante pela brandura das pupilas pardas, autoritário pela penetração na alma do interlocutor. Pousava sobre o ouvinte como suave farol e não se desviava abstrato para o vago, senão quando meditava, a sós. E o que mais personalidade lhe dava era a voz, clara e firme, de tonalidade agradável e oracional, que podia mesclar agradavelmente desde o murmúrio acariciante até as explosões de eloquência parlamentar. Sua gesticulação era sóbria, educada. Quando distraído, a ler ou a pensar, confiava os 'favoris'. Quando ouvia uma pessoa, enfiava o polegar direito no espaço entre dois botões do colete, a fim de não aparentar impaciência e, ao contrário, convencer de sua tolerância e atenção. Conversando com discípulos ou amigos íntimos, apunha algumas vezes a destra no ombro do ouvinte, num gesto de familiaridade. Mantinha rigorosa etiqueta social diante das damas."
Pelo seu profundo e inexcedível amor ao bem e à verdade, Allan Kardec edificou para todo o sempre o maior monumento de sabedoria que a Humanidade poderia ambicionar, desvendando os grandes mistérios da vida, do destino e da dor, pela compreensão racional e positiva das múltiplas existências, tudo à luz meridiana dos postulados do Cristianismo.
Filho de pais católicos, Allan Kardec foi criado no Protestantismo, mas não abraçou nenhuma dessas religiões, preferindo situar-se na posição de livre pensador e homem de análise. Compungia-lhe a rigidez do dogma que o afastava das concepções religiosas. O excessivo simbolismo das teologias e ortodoxias, tornava-o incompatível com os princípios da fé cega.
Situado nessa posição, em face de uma vida intelectual absorvente, foi o homem de ponderação, de caráter ilibado e de saber profundo, despertado para o exame das manifestações das chamadas mesas girantes. A esse tempo o mundo estava voltado, em sua curiosidade, para os inúmeros fatos psíquicos que, por toda a parte, se registravam e que, pouco depois, culminaram no advento da altamente consoladora doutrina que recebeu o nome de Espiritismo, tendo como seu codificador, o educador emérito e imortal de Lyon.
O Espiritismo não era, entretanto, criação do homem e sim uma revelação divina à Humanidade para a defesa dos postulados legados pelo Meigo Rabi da Galileia, numa quadra em que o materialismo avassalador conquistava as mais pujantes inteligências e os cérebros proeminentes da Europa e das Américas.
A primeira sociedade espírita regularmente constituída foi fundada por Allan Kardec, em Paris, no dia 1º de abril de 1858. Seu nome era "Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas". A ela o codificador emprestou o seu valioso concurso, propugnando para que atingisse os objetivos nobres para os quais foi criada.
Allan Kardec é invulnerável à increpação de haver escrito sob a influência de ideias preconcebidas ou de espírito de sistema. Homem de caráter frio e severo, observava os fatos e dessas observações deduzia as leis que os regiam.
A codificação da Doutrina Espírita colocou Kardec na galeria dos grandes missionários e benfeitores da Humanidade. A sua obra é um acontecimento tão extraordinário como a Revolução Francesa. Esta estabeleceu os direitos do homem dentro da sociedade, aquela instituiu os liames do homem com o universo, deu-lhe as chaves dos mistérios que assoberbavam os homens, dentre eles o problema da chamada morte, os quais até então não haviam sido equacionados pelas religiões. A missão do ínclito mestre, como havia sido prognosticada pelo Espírito de Verdade, era de escolhos e perigos, pois ela não seria apenas de codificar, mas principalmente de abalar e transformar a Humanidade. A missão foi-lhe tão árdua que, em nota de 1º de janeiro de 1867, Kardec referia-se às ingratidões de amigos, a ódios de inimigos, a injúrias e a calúnias de elementos fanatizados. Entretanto, ele jamais esmoreceu diante da tarefa.
 

Fonte: O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita
 


 

 

 

O divisor de águas na vida
de Jésus Gonçalves

 
Ao estudarmos a história do Espiritismo no Brasil descobrimos a importância que muitas pessoas tiveram para o crescimento e a divulgação da Doutrina dos Espíritos. Cada uma no seu lugar, na sua cidade, no seu estado, exercendo importante papel.

É interessante observar que Jesus, o verdadeiro responsável pela vinda do Consolador Prometido para terras brasileiras, não apenas recrutou Espíritos elevados, convidando-os a reencarnar em nosso país, mas, e isso também é muito significativo, não dispensou o auxílio aos Espíritos endividados com as leis divinas, convidando-os a ressarcir seus débitos, ao mesmo tempo em que dariam sua cota de contribuição, colaborando de forma determinada e sincera com a nova etapa de seu Evangelho na Terra.

Então, se pudemos conhecer Dr. Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo, Chico Xavier, entre outros seres iluminados a trabalharem para o Mestre nesta nova seara, também pudemos conhecer irmãos dedicados como Jerônimo Mendonça, Jésus Gonçalves e outros que, se comprometidos com a Humanidade por desacertos em vidas pretéritas, não deixaram de dar seus testemunhos de luz, fortalecendo e exemplificando a mensagem de Jesus em nosso mundo, à luz do Espiritismo.

No presente artigo, mostraremos o grande divisor de águas na vida de Jésus Gonçalves, conhecido no meio espírita como “O Poeta das Chagas Redentoras”.

Tendo adquirido o Mal de Hansen ainda jovem, foi recolhido a um Asilo Colônia para tratamento, que na época era muito precário e incerto. Sem compreender o porquê de ser retirado da sociedade subitamente e ter de ficar longe de seus afetos, embora detentor de uma inteligência diferenciada e sutil (poeta, dramaturgo, musicista etc.), revoltou-se contra o “Deus de injustiças” que ele não lograva compreender.

E foi em um desses Asilos de Hansenianos, onde vivia com sua esposa havia onze anos, que ele, Jésus, acordou para a realidade espiritual.

Quem narra essa história é Eduardo Carvalho Monteiro, no seu livro “A Extraordinária Vida de Jésus Gonçalves” (Editora Espírita Correio Fraterno do ABC). Vejamos alguns trechos dessa narrativa:

“... Outro triste acontecimento viria fincar nova marca em seu espírito já tão sofrido... Sua companheira querida, que tantos testemunhos de amor lhe havia dado e depois de uma união de 12 anos, onze dos quais em Asilos de Hansenianos, finda sua nova existência na Terra, vitimada por dura e impiedosa moléstia – câncer de útero.

Assim, aos três de março de 1943, ao velarem o corpo de Anita, Jésus Gonçalves e seus companheiros de Pirapitingui se veem subitamente perplexos diante de surpreendente cena! Mafalda, interna que há poucos dias havia-se casado com Jaime, filho de Jésus, diz estar vendo o corpo astral da falecida e depois, tomada de terror e espanto, já que pela primeira vez, e segundo seu próprio relato, a última, travava contato com um fenômeno mediúnico, passa a gritar histericamente e a bater nas costas de um dos presentes – Biguá, ex-jogador profissional de futebol...

... A cena perdura, entremeada de momentos de lucidez e transe mediúnico de Mafalda, até que, sem preparo para viver tal situação, é retirada do local por Jaime. Jésus, então, censura severamente Jordelina, médium presente ao velório, que se utilizava do passe e água fluídica para acalmar a recém-casada Mafalda.

Desgostoso como o falecimento da esposa e com o clima de mistério que se formara no ambiente, repreende:- “Não gosto de pactuadas comigo. Tudo isso é bobagem! Deixe de feitiçaria, Jordelina!”

Logo, Jordelina Linhares da Silva, médium de incorporação, se predispõe a servir de intermediária para que houvesse a manifestação do Espírito e, apesar da incredulidade de Jésus, a mensagem vinha trazer do Além-Túmulo o chamamento que durante quarenta anos não encontrara eco em seu coração. Em linguagem bastante íntima dos dois, assim se dirige a ele:- “Velho, não duvides mais. Deus existe!”.

E prosseguiu sua conversação em termos que o impressionaram bastante pelo teor íntimo das confidências trocadas.

Passada a indignação inicial, o materialista Jésus se sentiu sobremaneira impressionado, no entanto, de espírito ponderado e analista, não se deixou levar pelo primeiro impacto da emoção, mas, consultando a razão, foi buscar nos livros espiritistas explicações para o sucedido.

“O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec, foi o marco inicial da grande transformação que iria se operar dali em diante na vida de Jésus Gonçalves. Porém, o fato que culminou com a sua total conversão aconteceria poucos dias depois, conforme relato de seus contemporâneos de Pirapitingui.

Estava Jésus, como sempre, às voltas com sua dor no fígado, só que neste dia ela se apresentava bem mais forte que de costume. Então ele, no auge do sofrimento, resolve chamar por aquele “deus” de que tanto falavam e ele recusava aceitar. Logo, num extremo recurso e dada a inoperância dos medicamentos que tomava, retirou um copo de água da talha, colocou-o na mesa da cozinha e disse, prática e resolutamente:

Se Deus existe mesmo, dou cinco minutos para que coloque nesta água um remédio que me alivie a dor! E marcou no relógio... Cravados os cinco minutos, foi beber a água, e qual não foi sua surpresa quando esta se apresentou totalmente amarga. Impressionadíssimo, chamou um companheiro para provar aquela água e a da talha, este, por sua vez, provou e sentiu a diferença. Estaria ficando louco? Seria uma alucinação? Estaria enfeitiçado?... Mas a dor não lhe deu tempo para pensar e Jésus não se fez de rogado: ao olhar espantado do amigo, sorveu a grossos goles o líquido no intuito de aliviar a dor que não transigia.

Não demorou mais que dois minutos para que o efeito se fizesse sentir e Jésus, sem folga para refletir sobre as emoções dos últimos instantes, corre para o banheiro, quase sem tempo para acomodar-se. Ao sair dali, Jésus, já sem dores, entre agradecido e espantado, passa a reexaminar suas bases materialistas e, nos dias seguintes, sofregamente, se dedica ao estudo das obras de Kardec, Denis, Flammarion, Bozzano e outros, completando, assim, a conversão que tivera início no velório de Anita.”

Transformado, torna-se um grande divulgador do Espiritismo, passa e trocar cartas com Chico Xavier e, escrevendo para pessoas do Brasil todo, consegue, com seu entusiasmo e a ajuda de muitos de fora do Asilo (como D. Laura, seu marido Romeu e o filho Ivan de Albuquerque), que fosse aprovada a primeira visita direta dos parentes e amigos aos internos em tratamento. E, de sua motivação, surge a primeira “Caravana da Fraternidade”, quando vários ônibus, repletos de entes queridos e irradiando saudade, amor e fraternidade, com a autorização da vigilância sanitária e do governo federal, adentraram pela primeira vez aquele ambiente até então reservado apenas aos enfermos e ao pessoal da saúde.

O Consolador

Crônicas e Artigos

Ano 6 - N° 289 - 2 de Dezembro de 2012